[Iberê] Deus, religião e sentimento religioso, segundo Freud 
Professor Iberê
Arquiteto, Psicanalista e escritor
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Deus, religião e sentimento religioso, segundo Freud

O sentimento religioso é uma constante ao longo da história e do processo de desenvolvimento das diversas civilizações que sucessivamente dominaram nosso planeta. As religiões passam por diversas fases e conflitos, nem todas as perguntas têm em si as respostas imediatas, entretanto, tais idéias são difundidas pela civilização como um bem precioso.

Suas idéias são altamente valorizadas ao longo do tempo enquanto condição para o mais alto grau do bem-estar. A “Palavra de Deus” carrega em si, para o religioso, as condições para a conquista de riquezas, dos proventos, da cura para as doenças e os males, dentre outros desejos que a civilização não pode satisfazer.

A explicação que Freud dá ao sentimento religioso decorre do desamparo na qual o indivíduo é dotado ao nascer em um mundo que lhe parece estranho, hostil e cheio de enigmas, da existência à própria morte. O desamparo infantil decorre dos conflitos e dúvidas quanto as garantias sobre o existir e o futuro. Em Freud, tal desamparo também é o motor da civilização, uma vez que esta nasce na tentativa de diminuir o desamparo do homem diante das forças da natureza, dos enigmas da vida e da própria morte.

Decorre daí que o indivíduo tem um sentimento quanto à proteção, uma necessidade de um pai protetor que lhe trará um apazigüamento do temor, buscando indicar as soluções para dominar o desconhecido. A esse sentimento que estaria ligado à gênese do ideal de Eu, Freud denominou de “sentimento oceânico”, isto é, a relação do ser humano com um ser infinito, absoluto e abstrato. Outra discussão se faz necessária para explicar o sentimento religioso em Freud, a questão da civilização.

A análise de Freud para a questão da humanidade é de longe um quadro do terror. Porém, é no meio dessas trevas que Freud estabelece as bases para explicar os conflitos humanos, o sofrimento psicológico e a constituição do indivíduo. Em Freud a vida é sofrimento e viver é sofrer, tal como em Schopenhauer.

Ela nos proporciona muitas decepções e tarefas difíceis de suportá-la. Há 3 maneiras principais de experimentar o sofrimento: o advindo da decadência do nosso próprio corpo condenado à dissolução (morte); do mundo externo quando entramos em conflitos (imposições e regras culturais) e o último, advindo do nosso relacionamento com o outro. Relacionamento é desgastante a qualquer um, traz uma série de conflitos e dissabores, no entanto, é uma faca de dois gumes, pois também é através dos relacionamentos que constituímos nossa subjetividade.

Apresentado o propósito da vida, a busca do prazer em detrimento do desprazer, verifica-se que o programa do princípio do prazer está em desacordo com o mundo, tanto quanto ao macrocosmo como o microcosmo. A cultura é a grande vilã e a vida em sociedade só é possível com o estabelecimento de regras, o que necessariamente causará confrontos com os desejos individuais.

As possibilidades de felicidade já são condenadas pela nossa própria constituição. Ela é restrita e sua manifestação é passageira. A felicidade intensa e prolongada não existe em Freud, nos comportamos de modo que só podemos experimentar prazer intenso em contraste: amor - indiferença; alegria - tristeza; gostar - odiar, etc.

O ceticismo é fundamental na psicanálise freudiana. Coloca-se um dilema, de um lado reconhece que o estado anterior à civilização é ruim por conduzir à barbárie (lei do mais forte); de outro, a civilização nos cobra um preço elevado para tornar viável a vida em sociedade, este preço é a renúncia dos prazeres e desejos individuais por outros mais conciliatórios com a coletividade.

O ser humano está aprisionado, porém, Freud não é um pessimista, deixou a psicanálise para ajudar o homem a conseguir formas mais conciliatórias com as restrições impostas pela civilização. Para citar um exemplo qualquer, o amante que experimenta os dissabores de um relacionamento não correspondido, não pode imputar danos à amada, agredí-la ou puní-la, se o fizer, isso terá um custo a ser pago, poderá sofrer as sanções da Lei. Mas esse sujeito pode encontrar na arte, na música ou na escrita, uma expressão satisfatória dos seus desejos reprimidos.

A gênese dos deuses e das religiões em Freud Diante do dilema da vida colocada por Freud, cada civilização construiu os deuses à sua imagem e semelhança espelhadas nos idealimos dos desejos coletivos. Coube aos deuses a tarefa de remediar os conflitos dos homens e aplicar sofrimentos àqueles que afligem o próximo e, também, prover uma recompensa para àqueles considerados “merecedores”. Nenhum deus nasce de uma religião, mas toda religião nasce de um deus, ou vários.

A religião tem a função de separar os que crêem em um deus em específico e criar as regras e o moralismo que irão configurar à doutrina. - Eis o nascimento de um repertório de dogmas, produto da necessidade do homem em tornar tolerável o seu sofrimento e sua fraqueza diante da Natureza. É nesse sentido que todas as religiões - independente de seus princípios - têm dois extremos comuns enquanto objetivo final e separação dos merecedores dos não merecedores: uma alternativa que traga um novo início depois do fim enquanto recompensa (vida depois da morte) e um castigo àqueles que não foram condizentes com os princípios da doutrina.

Certamente que as idéias religiosas passam por um longo processo de desenvolvimento em diversas fases. Em muitas das fases ocorrem conflitos de idéias que resulta na dissolução de uma religião em duas ou mais vertentes, por exemplo, o Catolicismo que na divergência de idéias acabou se dividindo em várias vertentes: os luteranos, calvinos, anglicanos…etc. No Brasil é marcante as diversas segmentações do Cristianismo através dos cristãos, assembleianos, pentecostais, evangélicos…etc. No entanto, as idéias religiosas transmitidas ao longo das civilizações adquirem um valor altamente precioso nas sociedades formadas.

Toda doutrina religiosa é incapaz de provas, ou você acata as idéias enquanto verdadeiras e acredita, ou não acredita. Para Freud, quando indagamos a autencidade de um dogma, nos deparamos com três respostas possíveis: 1) os ensinamentos merecem à crença porque os antepassados já acreditavam; 2) levanta-se “provas” de tais ensinamentos transmitidos pelos antepassados - obviamente que a prova é aquela baseada na fé ou no criacionismo; 3) é totalmente proibido questionar a autencidade da prova. Nesse último, reside a mais alta sustentação da religião.

Freud explica a questão da manutenção dos dogmas pela internalização desde a infância, dos ensinamentos e dogmas religiosos. A criança em sua constituição aprende desde cedo que questionar a existência de um deus é extremamente punitivo.

Trazendo a discussão para o mundo ocidental, tomando o Cristianismo como exemplo, se a criança pergunta aos pais onde está Deus ela irá receber várias respostas: “está no seu coração”; “na sua alma”; “no seu espírito”; “está no céu olhando todos nós”. Em uma pergunta surgem várias outras dúvidas, nenhuma delas satisfará enquanto prova autêntica para a compreensão da realidade pela criança.

Na medida em que tais questionamentos irão sendo prolongados quando a criança se depara com os conflitos gerados pelo encontro dos seus ideias de mundo com a realidade, serão duramente reprimidos pelos pais e pela cultura, uma vez que esta estabelece que ter uma religião é uma condição normal, anormal é quem não tem.

Em épocas passadas os exemplos de como eram punidos tais presunções são violentos, hoje, com muito otimismo podemos dizer que a civilização olha com desconfiança para quem coloca uma idéia religiosa em dúvida.

Considerações finais: Este breve exposto não teve as pretensões de esgotar o assunto, tais considerações são antes de tudo uma possível explicação através do pensamento social de Freud para à existência do sentimento religioso do que uma concepção hermética do assunto.

Felizmente as chamas das fogueiras da Inquisição há muito tempo se apagaram. Os ateus e os céticos conseguiram destruir muitas mordaças. Entendo que apontar o dedo para um religioso e tentar criticá-lo por apelar ao sobrenatural não é direito nosso, assim como o oposto também não é. O próprio Freud admite que é insensato tentar eliminar a religião pela força, por um só golpe.

Tal presunção é irrealizável e se fosse, seria crueldade. Apontado por Freud, “Um homem que passou dezenas de anos tomando pílulas soporíferas, evidentemente fica incapaz de dormir se lhe tiram sua pílula. Que o efeito das consolações religiosas pode ser assemelhado ao de um narcótico (…)”, porque concetraríamos nossas forças em acusações aos religiosos? - Façamos diferente.

Questões como para onde vamos, de onde viemos, como foi criado o mundo entre outros enigmas, ainda resistem às explicações do criacionismo. Entendo que tais questões não ajudam a avançar e jamais terão explicações empíricas, quando muito modelos mais próximos da realidade - teoria do Big Bang - do que a lenda de Adão e Eva.

O Velho Mundo ficou na história, muitos deuses e demônios já foram enterrados, outros foram criados e ainda outros ressuscitados, mas ainda há muito mais trevas. A Ciência já expulsou muita escuridão, mas ainda é uma luz de vela que nos traz um pouco de sentido diante do desconhecido. Lutemos para que tais luzes sejam ampliadas e não se apaguem.

À partir das bases filosóficas e científicas apontemos a espada na face dos deuses perversos e seus demônios, seus métodos de punição e principalmente, nos pregadores - empresários de deus na Terra - e nas religiões, instituições estas que criam condições de alienação e conformismo, aprisionando a existência no pernicioso moralismo. Façamos nossa parte, pois do outro lado os escritos sagrados estarão lutando para arrebatar cada vez mais vidas e trancafiá-las nos calabouços do absoluto, condenando os estéreis de fé a se estribarem no tridente de satanás.

Bibliografia básica:
O futuro de uma ilusão - Freud (1927)
O mal-estar na civilização - Freud (1929)

Texto de autoria desconhecida, consta na internet em vários sites.


Publicado em 19/03/2009 às 19:20 hs, atualizado em 28/06/2016 às 17:34 hs


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NOSSOS LEITORES JÁ FIZERAM 1 COMENTÁRIO sobre este artigo:
De: Lassance_J (em 19/11/2012 às 12:12 hs)
Deus,religião e sentimento religioso,segundo Freud
Creio que neste texto deve-se considerar somente ao que Freud disse, pois o que se comenta demonstra um total desconhecimento do que realmente seja religião.

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