[Iberê] Como funciona a lavagem cerebral, como prevenir e remediar 
Professor Iberê
Arquiteto, Psicanalista e escritor
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Como funciona a lavagem cerebral, como prevenir e remediar

Por Arq. Me. Iberê Moreira Campos equipe


Muita gente pensa que a lavagem cerebral acontece só nos filmes e na ficção científica. Ledo engano, a lavagem cerebral está acontecendo agora mesmo, em todos os lugares e em vários meios de comunicação, com os propósitos mais diversos.

Veja o que é a lavagem cerebral, como ela é feita, com que propósitos. Aprenda a prevenir-se e, se for o caso, como livrar-se dela, para ajudar a si mesmo ou a outras pessoas.

O estudo dos processos de lavagem cerebral é geralmente referido em psicologia como sendo a “reforma do pensamento”, nome sutil que designa técnicas poderosas que acabam caindo na esfera da influência social, isto é, são usadas em dia-a-dia mesmo sem que pouca gente perceba. A influência social acontece a cada minuto todos os dias. É o conjunto das maneiras nas quais as pessoas podem mudar atitudes, crenças e comportamentos de outras pessoas.

A lavagem cerebral é um forma séria de influência social que combina todas as abordagens para causar mudanças no modo de pensar de alguém sem que a pessoa consinta.

Como a lavagem cerebral é uma forma invasiva de influência, ela requer o completo isolamento e dependência do indivíduo e essa é a razão pela qual você quase sempre ouve que a lavagem cerebral ocorre em campos de concentração ou em cultos extremistas. O agente (pessoa que vai executar a lavagem cerebral) deve ter completo controle sobre o alvo (a pessoa que vai sofrer a lavagem cerebral) para que os padrões do dormir, comer, usar o banheiro e outras necessidades básicas do ser humano dependam da vontade do agente.

Enquanto a maioria dos psicólogos acredita que a lavagem cerebral é possível sob as condições certas, alguns vêem como improváveis ou pelo menos não tão sérias como a mídia demonstra. Alguns dizem que é necessário haver presença da ameaça física então, de acordo com esse pensamento, os cultos mais extremistas não praticariam a verdadeira lavagem cerebral, já que não abusam fisicamente dos seguidores. Outros mencionam o "controle e a coerção não física" como um meio eficaz de assegurar a influência. Independentemente dessas idéias, muitos peritos acreditam que, mesmo sob condições ideais de lavagem cerebral, os efeitos do processo são mais freqüentes em curto prazo. A antiga identidade das vítimas da lavagem cerebral não é erradicada de fato pelo processo, mas escondida. Uma vez que a "nova identidade" pára de ser forçada, as antigas atitudes e crenças da pessoa começarão a voltar.

Técnicas de lavagem cerebral



Existem vários métodos que induzem à chamada lavagem cerebral. Os mais famosos são:
  • Método de submissão – Pretende produzir mudanças no comportamento da pessoa não se preocupando com suas atitudes ou crenças. Essa abordagem induz ao “Apenas Faça”, isto é, não pense muito a respeito.
  • Método da persuasão – Ao contrário do método anterior, pretende mudar a atitude e induz ao “Faça porque isso vai fazê-lo sentir-se melhor ou mais feliz, saudável ou bem-sucedido”.
  • Método de educação – Também de “método de propaganda”, é usado quando não se acredita no que está sendo ensinado. Este método está no topo da influência social e tenta afetar uma mudança nas crenças da pessoa, induzindo a ações do tipo “Faça porque você sabe que é a coisa certa a ser feita”.
No final dos anos 50 o psicólogo Robert Jay Lifton estudou ex-prisioneiros americanos das guerras da Coréia e China (vide os casos famosos, mais adiante). O estudo chegou à conclusão que os homens tinham passado por um processo múltiplo que começava com ataques contra a identidade do prisioneiro e terminava com o que parecia ser uma mudança nas crenças dos mesmos. A partir desta constatação, definiu-se um conjunto de etapas envolvidas nos casos de lavagem cerebral estudados por Lifton:
  1. Ataque contra a identidade
  2. Culpa
  3. Autotraição
  4. Ponto de colapso
  5. Clemência
  6. Compulsão para confissão
  7. Canalização da culpa
  8. Liberação da culpa
  9. Progresso e harmonia
  10. Confissão final e renascimento
Cada um desses estágios acontece em um ambiente de isolamento. Todos os pontos de referência social considerados normais estão indisponíveis e técnicas como a privação de sono e desnutrição são partes comuns do processo. Há ameaças físicas freqüentes, o que aumenta a dificuldade do alvo em pensar de maneira independente e crítica. O processo que Lifton identificou pode ser dividido em três estágios:
  1. Ponto de “colapso do eu”,
  2. Apresentação da possibilidade da salvação, e
  3. Reconstrução do “eu”.
Analisamos a seguir estas diversas etapas, acompanhe:

Ponto de colapso do eu



1 — Ataque contra a identidade: você não é quem pensa que é. É um ataque sistemático à identidade (ego) do alvo e a seu principal sistema de crença. O agente nega tudo o que faz do alvo ser quem é (por exemplo: "você não é um soldado", "você não está defendendo a liberdade"). O alvo fica sob ataque constante por dias, semanas ou meses, até o ponto em que fica exausto, confuso e desorientado. Nesse estado, suas crenças parecem menos sólidas.

2 — Culpa: você é ruim. Enquanto a crise de identidade está se instalando, simultaneamente o agente está criando uma irresistível sensação de culpa no alvo. Ele ataca o alvo repetidamente sobre qualquer deslize que tenha cometido (seja grande ou pequeno). O alvo começa a sentir uma sensação geral de vergonha, de que tudo que faz está errado.

3 — Autotraição: concorda comigo que você é ruim? Uma vez que o paciente está desorientado e se martirizando pela culpa, o agente o força (com ataques físicos e mentais) a denunciar família, amigos e parceiros que compartilham das mesmas idéias "erradas" que ele. Essa traição com relação às suas crenças e às pessoas com as quais tem lealdade é para aumentar a vergonha e a perda da identidade que o alvo já está experimentando.

4 — Ponto de colapso: quem sou eu, onde estou e o que tenho de fazer? Com sua identidade em crise, passando por uma profunda vergonha e tendo traído o que sempre acreditou, o alvo pode passar pelo que na comunidade leiga é conhecido como um colapso nervoso. Na psicologia, o colapso nervoso é um conjunto de graves sintomas que podem indicar distúrbios psicológicos. Isso pode envolver um soluço descontrolado, uma profunda depressão e desorientação geral. O alvo pode ter perdido a compreensão da realidade e ter a sensação de estar completamente sem rumo e sozinho.

Quando o alvo atinge o ponto de colapso, seu senso do eu está muito confuso. Ele não tem um entendimento claro de quem é ou do que está acontecendo com ele. Nesse ponto, o agente mostra a possibilidade de o alvo se converter para outro sistema de crença que o libertará de sua sutuação atual.

Apresentação da possibilidade da salvação



5 — Clemência: eu posso ajudar você. Com o paciente em estado de crise, o agente oferece algumas pequenas gentilezas. Ele pode, por exemplo, oferecer ao alvo um copo d'água ou perguntar do que ele sente saudade em casa. Em estado de colapso resultante de um ataque psicológico constante, a pequena gentileza parece enorme e o alvo pode experimentar sensação de alívio e gratidão completamente fora da proporção daquilo que foi oferecido, como se o agente estivesse salvando sua vida.

6 — Compulsão para confissão: você pode se ajudar. Pela primeira vez no processo, o alvo encara o contraste entre a culpa e a dor do ataque contra a identidade e o alívio repentino da clemência. O alvo pode sentir um desejo de retribuir a gentileza oferecida a ele e, nesse ponto, o agente pode apresentar a possibilidade da confissão como um meio de aliviar a culpa e a dor.

7 — Canalização da culpa: esta é a razão pela qual você está sofrendo. Após semanas ou meses de ataque, o alvo não tem certeza do que fez de errado, sabe apenas que está errado. Isso cria algo como lacunas e que prontamente podem ser preenchidas pelo agente: ele pode acrescentar culpa para qualquer coisa que quiser. O agente transfere a culpa para sistema de crenças que está tentando substituir. O contraste entre o velho e o novo foi estabelecido: o antigo sistema de crença é associado com a agonia psicológica (e geralmente física) e o novo sistema de crença é associado com a possibilidade de fugir dessa situação.

8 — Liberação da culpa: não sou eu, são minhas crenças. O alvo preparado está aliviado para aprender que existe uma causa externa para estar errado, que não é ele que é inevitavelmente mau, o que significa que pode escapar do sentimento de erro. Tudo o que precisa fazer é denunciar as pessoas e instituições associadas ao seu sistema de crença e todo o sofrimento acabará. O alvo tem o poder de se liberar do que está errado, confessando os atos associados com seu antigo sistema de crença. Com sua total confissão, o alvo completou a rejeição psicológica de sua antiga identidade. Agora cabe ao agente oferecer ao alvo uma nova identidade.

Reconstrução do eu



9 — Progresso e harmonia: se quiser, pode escolher o melhor para você. O agente apresenta um novo sistema de crença como o caminho para o "bem". Nesse estágio, o agente pára com os ataques, oferecendo ao alvo conforto psicológico e alívio mental. O alvo é levado a sentir que a escolha entre o velho e o novo é dele. A sensação que sente é que tem seu destino nas mãos. A essa altura, já denunciou seu antigo sistema de crença em resposta à clemência e tormento. Fazer uma "escolha consciente" em favor do novo sistema de crença ajuda a ampliar o alívio: se ele realmente acredita, então não traiu ninguém. A escolha passa a não ser algo difícil pois a nova identidade é "segura" e atraente porque não se parece com a que o levou ao colapso.

10 — Confissão final e renascimento: eu escolho o bem. Contrastando a agonia do velho sistema de crença com a paz do novo, o alvo escolhe a nova identidade, apegando-se a ela para preservar sua vida. No estágio final, com freqüência, há rituais ou cerimônias para introduzir o alvo convertido na sua nova comunidade. Esse estágio foi descrito por algumas vítimas de lavagem cerebral como um sentimento de "renascimento".

Segundo consta, o processo de lavagem cerebral exposto acima não foi testado em um laboratório porque seria um experimento científico contrário à ética. Lifton criou essa descrição a partir de narrativas das técnicas usadas pelos captores na Guerra da Coréia e de outros exemplos relatados ao redor do mundo. Desde que Lifton e outros psicólogos identificaram variações sobre o que parece ser um conjunto de etapas que guiam ao estado da sugestionabilidade, uma questão interessante é por que funciona com algumas pessoas e com outras não.

Certos traços de personalidade dos alvos podem determinar a eficácia ou não do processo. Pessoas que já tiveram grandes dúvidas sobre si mesmas e as que demonstram uma tendência à culpa são bastante suscetíveis. Já as pessoas com um forte senso de identidade e de auto-confiança podem ser mais resistentes ao processo. Algumas narrativas mostram que a fé em um poder superior pode ajudar um alvo a se neutralizar mentalmente do processo. A neutralização mental é uma técnica de sobrevivência dos prisioneiros de guerra e agora faz parte de seu treinamento. Os militares também ensinam aos soldados os métodos usados na lavagem cerebral, porque o conhecimento do processo tende a torná-lo menos eficaz.

Os estudiosos traçaram as origens da sistemática da reforma do pensamento para os campos de concentração da Rússia comunista no começo do século XX, quando os prisioneiros políticos eram rotineiramente "reeducados" para a visão comunista do mundo. Foi quando a prática se espalhou pela China e os escritos do presidente Mao Tse-tung ("O Pequeno Livro Vermelho") apareceram, que o mundo começou a conhecer o tema.

Casos famosos: a lavagem cerebral ontem e hoje



Em 1929, Mao Tse-tung, que mais tarde lideraria o Partido Comunista Chinês, usou a frase ssu-hsiang tou-cheng (traduzida como "batalha do pensamento") para descrever um processo de lavagem cerebral. Os prisioneiros na China e na Coréia eram normalmente submetidos às técnicas de conversão comunistas. O conceito moderno e o termo "lavagem cerebral" foi usado pela primeira vez pelo jornalista Edward Hunter, em 1951, para descrever o que havia acontecido com os prisioneiros de guerra americanos durante a Guerra da Coréia. Os norte-americanos entraram em pânico com a idéia de uma doutrinação comunista em massa através da lavagem cerebral. Depois das revelações da Guerra da Coréia, o governo dos EUA temia ficar para trás na corrida das armas, por isso começou suas próprias pesquisas sobre o controle da mente. Em 1953, a CIA começou um programa chamado MKULTRA. Em um estudo, a CIA supostamente deu LSD (ácido licérgico) aos pacientes para estudar os efeitos das drogas que alteram a mente e avaliar a eficácia dos psicodélicos na indução a um estado mental de lavagem cerebral amistosa. Os resultados não foram encorajadores e os pacientes foram supostamente prejudicados pelos experimentos. As experiências com drogas pela CIA foram oficialmente canceladas pelo congresso em 1970, embora algumas pessoas afirmem que isso ainda aconteça por baixo dos panos. O interesse público na lavagem cerebral acalmou-se um pouco após a Guerra Fria, mas reapareceu entre os anos 60 e 70 com o surgimento de incontáveis grupos religiosos e políticos secundários durante aquela época. Os pais que ficavam horrorizados pelas novas crenças e atividades dos filhos tinham certeza de que eles tinham sofrido lavagem cerebral em cultos. Os suicídios em massa e os massacres cometidos por uma pequena porcentagem daqueles cultos pareciam validar os temores de lavagem cerebral.

Patty Hearst foi uma suposta vítima da lavagem cerebral naquela época. Ela era herdeira da fortuna da editora Hearst e quando foi a julgamento por assalto a banco, usou como defesa a lavagem cerebral. Hearst ficou famosa no início dos anos 70 após ter sido seqüestrada pelo Exército Simbionês de Libertação (o SLA - Symbionese Liberation Army, que alguns consideram um "culto político") e acabou se unindo ao grupo. Hearst relatou que foi trancada em um armário escuro por vários dias após o seqüestro, passou fome, cansaço, foi brutalizada e temeu por sua vida enquanto membros do Exército Simbionês de Libertação a bombardeavam com sua ideologia política anticapitalista. Após dois meses de seqüestro, Patty mudou de nome, emitiu uma declaração na qual se referia de maneira ofensiva à sua família e apareceu em uma fita de segurança roubando um banco junto com seus seqüestradores.

Patty Hearst foi julgada por assalto a banco em 1976 e o famoso F. Lee Bailey a defendeu. A defesa alegou que Hearst tinha sofrido uma lavagem cerebral pelo Exército Simbionês de Libertação e que, em seu estado mental, ela não distinguia o certo do errado. Hearst foi considerada culpada e sentenciada a sete anos de prisão, dos quais cumpriu dois. Em 1979, o presidente Carter comutou sua sentença.

Uma outra defesa de insanidade devido à lavagem cerebral chegou aos tribunais 30 anos depois, quando Lee Boyd Malvo foi julgado por sua participação, em 2002, em ataques de tocaia ao redor de Washington, D.C. Malvo tinha 17 anos e John Allen Muhammad tinha 42 anos. Juntos, eles mataram dez pessoas e feriram três em um massacre. A defesa alegou que o adolescente havia sido submetido a uma lavagem cerebral para cometer os crimes, algo que jamais teria feito se não estivesse sob o controle de Muhammad. De acordo com "A Defesa da Lavagem Cerebral" na Psicologia Atual:

"Muhammad arrancou Malvo, com 15 anos, de Antígua, uma ilha caribenha, onde sua mãe o havia abandonado e o trouxe para os EUA em 2001. Veterano do Exército, Muhammad encheu a cabeça do adolescente com visões de uma iminente guerra e o treinou em pontaria certeira. Ele isolou Malvo, fez com que ele mergulhasse em sua própria marca criminosa idiossincrática do Islão e impôs ao seu filho 'adotivo' uma rígida dieta e regime de exercícios". O argumento foi que Malvo passou por uma lavagem cerebral e, por isso, não podia distinguir o certo do errado. Malvo foi considerado culpado e sentenciado a prisão perpétua e sem direito a liberdade condicional (Muhammad foi condenado à morte em um outro julgamento). Parece haver um contraste entre o temor da lavagem cerebral na sociedade moderna, como visto em filmes e literatura contemporâneos, e a aparente crença de que a lavagem cerebral é algo sem valor. Seja qual for a causa, as pessoas parecem fazer uma distinção entre a lavagem cerebral de hoje e uma futura.

O futuro da lavagem cerebral envolve muito mais abordagens de alta tecnologia. Os implantes de cérebro são muito mais assustadores do que os ataques contra a identidade verbais ou físicos. Mas a maioria dos cientistas concorda que o campo da neurocirurgia está muito longe deste nível de entendimento do cérebro humano. Além disso, muitos psicólogos acreditam que a lavagem cerebral em larga escala, via comunicação em massa e mensagens subliminares, por exemplo, não é possível porque o processo de reforma de pensamento requer isolamento e absoluta dependência do paciente para que seja eficaz. Não é tão fácil assim mudar a personalidade e as crenças de uma pessoa.

Durante a Guerra da Coréia, coreanos e chineses faziam lavagem cerebral nos prisioneiros de guerra americanos mantidos nos campos de concentração. Muitos tiveram mudanças de comportamento radical e pelo menos 21 soldados se recusaram a voltar para os Estados Unidos quando foram libertados. Isso parece impressionante e nos leva a perguntar: a lavagem cerebral realmente funciona?

Há psicólogos que dizem que a aparente conversão dos prisioneiros de guerra americanos durante a Guerra da Coréia foi resultado de tortura, não de lavagem cerebral. De fato, a maioria dos prisioneiros de guerra não foi convertida ao comunismo, o que leva à seguinte questão: a lavagem cerebral é um sistema que produz resultados similares em todas as culturas e personalidades ou depende principalmente da suscetibilidade do alvo à influência? Na próxima seção, vamos examinar a descrição que um perito fez a respeito do processo da lavagem cerebral e descobrir o que faz com que um alvo seja suscetível.

Publicado em 10/03/2009 às 11:04 hs, atualizado em 28/06/2016 às 17:34 hs


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